. Fílis
. A donzela no rochedo dos ...
. ...
. Aracne
. O Anjo

Ao regressar de Troia, Acamante foi surpreendido por uma tempestade que o arrastou com algumas naus para a costa da Trácia, para a embocadura do Estrímon, onde foi acolhido pelo rei Fileu. Este monarca tinha uma filha chamada Fílis, que se apaixonou pelo príncipe. O rei prometeu-lhe casamento, mas prevenira-a de que antes teria de regressar a Atenas, a fim de resolver uns assuntos urgentes, após o que voltaria para nunca mais a deixar. Fílis consentiu em tal separação mas entregou ao noivo uma caixinha, dizendo-lhe que a deveria conservar fechada e que continha os objectos sagrados do culto de Reia. Só deveria abri-la no dia em que tivesse perdido toda a esperança de a voltar a ver ou não voltar para ela.
Chegou o dia aprazido e ele não apareceu. Nove vezes Fílis desceu da cidade até ao porto para ver se chegava o barco do seu amado, mas em vão. Em memória dos nove percursos efectuados pela jovem o local onde esperara ficou conhecido como "o sítio das nove estradas".
Quando perdeu a esperança de voltar a ver o seu amor, Fílis enforcou-se. No mesmo dia, em Creta, onde entretanto Acamante se tinha fixado, desposando outra mulher, algo de curioso aconteceu. O amante traidor abriu a caixa que a noiva lhe dera e dela saiu um espectro que assustou o seu cavalo. O animal empinou-se e o jovem caiu sobre a sua espada, morrendo instantaneamente.
Contava-se ainda que Fílis tinha sido convertida em árvore - numa amendoeira sem folhas.
O noivo voltou à Trácia, após a morte da jovem e soube da sua metamorfose. Acercou-se da amendoeira estéril e beijou-a. Logo brotaram folhas e a árvore reverdesceu. Daí advinha, segundo se dizia, o nome dado em grego às folhas, chamadas inicialmente petala e mais tarde phylla.
Segundo outra versão, teriam sido plantadas sobre o túmulo de Fílis algumas árvores que perderiam as folhas na estação em que a jovem morrera.
O arcebispo cruel
Outra lenda muito conhecida é a que envolve a Mäuseturm ("torre dos camundongos"), uma pequena fortaleza construída dentro do rio, em frente à cidade de Bingen, pelo arcebispo Hatto, de Mainz. Ela servia como posto de recolhimento de pedágio dos navios que viajavam pelo Reno.

Hatto era conhecido por sua crueldade e por sua avareza, recolhendo impostos altíssimos dos seus súditos. Quando, certa vez, uma catástrofe natural destruiu grande parte da colheita da região, o arcebispo mandou recolher o que sobrara da produção agrícola, trancando tudo em seus silos e deixando a população à míngua.
Uma multidão de famintos dirigiu-se então ao seu palácio para implorar por um pouco de comida. O arcebispo mandou que fossem a um celeiro, onde encontrariam toda a comida que desejassem. Quando todos se entraram no celeiro, Hatto mandou que se trancasse as portas e ateasse fogo ao celeiro.
Das cinzas surgiram, porém, multidões de camundongos que perseguiram o arcebispo, invadindo seu palácio, comendo tudo o que encontravam e atacando as pessoas. Em pânico, Hatto fugiu para a Mäuseturm, onde acreditava estar a salvo, pois a fortaleza encontra-se no meio do rio. Enganou-se, porém: os camundongos o seguiram até lá e o devoraram.
Cada ruína, cada castelo e até mesmo alguns acidentes geográficos em torno do Reno são motivo de lendas, que inspiraram os poetas alemães desde tempos remotos. A mais conhecida de todas as lendas do Reno é a da Loreley.
Num penhasco à margem direita do rio, situado entre as cidades de Sankt Goarshausen e Kaub, morava Loreley, uma sereia de beleza incomparável e longos cabelos dourados. Nas noites de lua cheia, a Loreley entoava um irresistível canto que fazia os navegantes esquecerem o leme, num enlevo fatal, que conduzia seus barcos invariavelmente contra as rochas existentes naquele perigoso trecho do rio.

Assim sucedeu também com o filho do conde do Palatinado, Ronald, que apaixonado pelo canto da sereia teve o mesmo fim de outros navegantes. Irado pela morte do filho, o conde enviou tropas ao penhasco, com ordens de aprisionar a sereia e lançá-la do alto do rochedo ao rio, uma queda à qual seria impossível sobreviver.
Com grande esforço, os soldados do conde escalaram o penhasco, encontrando a sereia calmamente sentada, penteando os cabelos com um pente dourado. Ao saber das intenções dos soldados, a Loreley tomou seu colar de pérolas, lançando-o ao rio. Imediatamente levantou-se de lá uma enorme onda, sobre a qual a sereia baixou lentamente ao leito do Reno. Loreley nunca mais foi vista, mas seu canto continuou a ser ouvido durante muito tempo, nas noites claras de lua cheia.
Perséfone é filha de Zeus e Deméter. Crescia feliz entre as ninfas e pouco se preocupava com o casamento quando o seu tio Hades se apaixonou por ela e, com a ajuda de Zeus, a raptou. Perséfone colhia flores, em companhia das suas ninfas quando a terra se abriu, Hades apareceu e levou a noiva para o mundo dos infernos.

Para Deméter começou de imediato a busca da sua filha, que a fez percorrer todo o mundo conhecido. No momento de desaparecer no abismo Perséfone soltou um grito. Deméter ouviu-a e a angústia apertou-lhe o coração. A deusa acorreu, mas não conseguiu encontrar a filha. Durante nove dias e nove noites, sem comer nem beber, a deusa vagueou pelo mundo com um archote aceso em cada mão. No primeiro dia encontrou Hécate, que também ouvira o grito mas não reconhecera o raptor, cuja cabeça estava envolta pelas sombras da Noite. Apenas o sol, que tudo vê, lhe pôde dizer o que se passara.
Enfurecida, a deusa decidiu não mais voltar ao Céu e ficar na terra, abdicando da sua função divina até que lhe devolvessem a filha. O exílio voluntário da deusa tornava a terra estéril e a ordem do mundo encontrava-se perturbada. Assim, Zeus ordenou a Hades que devolvesse Perséfone, mas tal já não era possível, em virtude de a jovem ter quebrado o jejum enquanto se encontrava nos Infernos. Por inadvertência (ou tentada por Hades) ela tinha ingerido uma baga de romã, o suficiente para ficar indissociavelmente ligada aos infernos para sempre. Para amenizar o seu sofrimento Zeus decidiu que Perséfone repartiria o seu tempo entre o mundo subterrâneo e o mundo dos vivos.
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Há muito, muito tempo atrás, as bagas profundamente vermelhas da amoreira eram brancas como a neve. A mudança de cor que se operou foi provocada por algo de bastante estranho e triste - a morte de dois jovens apaixonados.
Piramo e Tisbe viviam na Babilónia, a cidade da rainha Semíramis em casas tão juntas que uma das paredes era comum a ambas.
Cresceram assim, lado a lado e aprenderam a amar-se mutuamente. Queriam casar mas os pais não permitiam. O amor, porém, não pode ser proibído. Era impossível continuar a manter separados aqueles dois seres profundamente apaixonados.
Na tal parede que ambas as casas partilhavam havia uma fenda de que nunca ninguém se
apercebera. Os dois jovens descobriram-na e, através dela, susurravam doces palavras de amor. A odiosa barreira que os separava transformara-se no meio de comunicarem um com o outro.
Todas as manhãs, à hora em que o alvorecer apagava o brilho das estrelas e os raios do sol já tinham absorvido a geada dos campos, dirigiam-se a passo furtivo até junto da fenda e aí ficavam em doces murmúrios, umas vezes trocando palavras de amor ardente, outras lamentando a sua triste sorte.
Porém, chegou o dia em que não podiam resistir por mais tempo. Resolveram, pois, tentar esquivar-se nessa noite e atravessar a cidade às escondidas até ao campo em que finalmente podiam estar juntos sem nenhum embargo. Combinaram encontrar-se num local onde havia uma enorme amoreira, carregada de bagas brancas e perto da qual gorgolejava a fonte. O plano agradou-lhes em absoluto e esperaram até ao anoitecer.
O sol mergulhou no Oceano e as trevas envolveram a Terra. Na escuridão, Tisbe escapuliu-se de casa e no maior silêncio dirigiu-se para o local combinado. Príamo ainda não tinha chegado, não obstante Tisbe ficou à espera dele, pois o amor tornava-a audaciosa. De repente distinguiu à luz do luar uma leoa. O animal tinha morto alguém, pois trazia as patas ensanguentadas...vinda de saciar a sua sede na fonte. A jovem conseguiu por-se a salvo porque a fera se encontrava ainda a uma distância considerável. Mas ao fugir, apanhada de surpresa, deixou cair a capa. Quando a leoa regressou ao covil abocou-a e fê-la em pedaços antes de desaparecer no interior do bosque.
Quando Piramo apareceu alguns minutos depois, diante dele, na obscuridade, os farrapos ensanguentados da capa e as pegadas nítidas da leoa só podiam levar a uma conclusão. Tisbe tinha sido morta. E ele deixara o seu amor, aquela terna donzela vir sozinha para um lugar tão perigoso como aquele!...Como não tinha sido o primeiro a protegê-la?
"Fui eu que a matei!"
Levantou do pó espezinhado o que restava da capa e beijando-a mais uma vez levou-a para junto da amoreira.
"Agora vais beber do meu sangue!"
Arrancou a espada e enterrou-a no coração.O sangue em borbotões esparrinhou as bagas, que se tingiram de vermelho-escuro. Entretanto, Tisbe, ainda que aterrorizada pela leoa, receava antes de tudo o mais não conseguir encontrar-se de novo com o seu amado. Resolveu aventurar-se a regressar para junto da árvore.
Viu uma árvore, mas nem uma centelha de brilho branco se divisava nos ramos. Enquanto, perplexa, fitava a planta, notou, estarrecida que alguma coisa se mexia no chão. Começou a recuar, horrorizada. Mas, de repente, espreitando por entre as sombras, teve a certeza de que havia lá uma coisa. Era Piramo, banhado em sangue, prestes a expirar. Voou para ele e enlaçou-o. Beijou-lhe os lábios frios, implorando-lhe que a olhasse, que lhe falasse.
- Sou eu, Tisbe, a tua amada! - exclamava a chorar. Ao ouvir pronunciar o nome dela Piramo entreabiu os olhos para a contemplar pela derradeira vez. Depois a morte fechou-lhe os olhos para sempre.
Tisbe viu a espada que caira da mão dele e ao lado a sua capa manchada e esfarrapada. Foi então que compreendeu o que acontecera.
- A tua mão te matou e o teu amor por mim. Eu também sei ter coragem. Também eu sei amar. Só a morte seria capaz de nos separar e contudo agora deixará de ter esse poder. - Mergulhou no coração a espada ainda húmida do sangue da sua vida.
Os deuses, porém, apiedaram-se dos dois, assim como os pais de ambos. O fruto vermelho-escuro da amoreira é o único testemunho perpétuo desses verdadeiros apaixonados cujas cinzas se encontraram reunidas numa única urna, pois nem a morte conseguiu separá-los.

Conta a lenda que Seth com inveja de Osiris, por este ter herdado o reino do pai na terra, engendrou um plano para matá-lo e assim usurpar o poder. Quando Osiris dormia, Seth tirou suas medidas e ajudado por 72 conspiradores, mandou construir um esquife com as medidas exatas de Osiris.
Organizou um banquete e lançou um desafio, aquele que coubesse no esquife o ganharia de presente. Todos os deuses entraram e não se ajustaram.
Assim que Osiris entrou no esquife, Seth o trancou e mandou jogá-lo no rio, a correnteza o levou até a Fenícia. Ali ficou preso em uma planta até fazer parte do caule, que foi usado para construir uma coluna o "Djed".
Isis partiu em busca do esposo, e após muitas aventuras, conseguiu regressar ao Egito com a caixa, que escondeu em uma plantação de papiro. Seth a descobriu e cortou o corpo de Osiris em quatorze pedaços, que espalhou pelo Egito.
Novamente Isis parte em busca dos despojos do esposo e dessa vez ajudada pela irmã Néftis, transformadas em milhafres (espécie de ave de rapina, semelhante ao abutre), encontram todas as partes de Osiris, exceto o órgão genital, que havia sido devorada por um peixe o Oxirincos.
Isis foi ajudada por Anubis que embalsamou Osiris, e este tornou-se a primeira múmia do Egito. Utilizando seus poderes mágicos, Isis, conseguiu que Osiris a fecundasse e dessa união nasceu Horus.
Seth iniciou uma luta pelo poder que envolveu todos os deuses. Por fim o próprio Osiris a partir do outro mundo, ameaçou mandar levantar todos os mortos se não fosse feita a justiça.
Rá e um tribunal de deuses estabeleceram que a sucessão fosse hereditária, e assim, Hórus pôde reinar.
Dessa maneira o Faraó em vida convertia-se em Hórus e ao morrer identificava-se com Osiris, o soberano do Além, considerando-se igual ao deus.

"(...) Certa noite, terminada a ceia, o veneziano e o dinamarquês ficaram a conversarna varanda. Do outro lado do canal via-se um belo paláciocom finas colunas esculpidas.
- Quem mora ali? - perguntou o cavaleiro.
- Agora ali só mora Jacob Orso com os seus criados, mas antes também ali morou Vanina, a rapariga mais bela de Veneza. Era orfã e Orso era o seu tutor. Quando era criança o tutor promteu-a em casamento a um seu parente, de seu nome Arrigo. Mas quando Vanina chegou aos 18 anos não quis casar com ele porque o achava velho, feio e maçador.Então Orso fechou-a em casa e nunca mais a deixou sair senão em sua companhia, ao Domingo, para ir à missa. Durante a semana Vanina prisioneira suspirava e bordava no interior do palácio, sempre rodeada e espiada pelas suas aias. Mas à noite Orso e as criadas adormeciam. Então Vanina abria a janela do seu quarto, debruçava-se sobre a varanda e penteava os seus cabelos, que eram loiros e tão compridos que passavam além da balaustrada e flutuavam, leves e brilhantes, enquanto as águas os reflectiam. E eram tão perfumados que de longe se sentia na brisa o seu aroma. E os rapazes de Veneza vinham de noite ver Vanina pentear seus cabelos. Mas nenhum ousava aproximar-se dela, pois o tutor fizera correr por toda a cidade que mandaria apunhalar quem ousasse namorá-la.
E Vanina, jovem e bela e sem amor, suspirava naquele palácio.
Mas um dia chegou a Veneza um homem que não temia Jacob Orso.Chamava-se Guidobaldo e era capitão de um navio. O seu cabelo preto era azulado como a asa de um corvo e a sua pele queimada pelo sol e pelo sal. Nunca no Rialto passeara tão belo navegador.
Ora certa noite, Guidobaldo Passou de Gôndola pelo canal. Sentiu no ar um maravilhoso perfume, levantou a cabeça e viu Vanina pentear os cabelos. Aproximou o seu barco da varanda e disse:
- Para cabelos tão belos e perfumados seria preciso um pente de oiro.
Vanina sorriu e atirou-lhe o seu pente de marfim.
Na noite seguinte à mesma hora o jovem capitão voltou a deslizar de gôndola ao longo do canal.
Vanina sacudiu os cabelos e disse-lhe:
- Hoje não me posso pentear pois não tenho pente.
- Tens este que eu te trago e que mesmo sendo de oiro brilha menos que o teu cabelo.
Então Vanina atirou-lhe um cesto atado por uma fita onde Guidobaldo depôs a sua oferta.
E dai em diante a rapariga mais bela de Veneza passou a ter um namorado.
Quando esta notícia se espalhou ela cidade os amigos do capitão preveniram-no de que estava a arriscar a sua vida, pois Orso não lhe perdoaria. Mas ele era forte e destemido, sacudiu os ombros e riu.
Ao fim do mês foi bater à porta do tutor.
- Que queres tu? - perguntou o velho.
- Quero a mão de Vanina.
- Vanina está noiva de Arrigo e não há-de casar com mais ninguém. Sai depressa de Veneza. Tens um dia para saires da cidade. Se amanhã ao pôr-do-sol ainda não tiveres partido mandarei sete homens com sete punhais para te matar.
Guidobaldo ouviu, sorriu, fez uma reverência e saiu.
Mas nessa noite a sua gôndola parou junto da varanda da casa de Orso. De cima atiraram um cesto preso por uma fita e dentro dele o jovem capitão depôs uma escada de seda. O cesto foi puxado para a varanda e a escada, depois de desenrolada, foi atada à balaustrada de mármore cor-de-rosa. Então, ágil e leve, Vanina desceu com os cabelos soltos flutuando na brisa. Guidobaldo cobriu-a com a sua capa escura e a gôndola afastou-se e desapareceu no nevoeiro de Outubro.
Na manhã seguinte as aias descobriram a ausência de Vanina e correram a prevenir o tutor. Jacob Orso chamou Arrigo e com ele e os seus esbirros dirigiram-se para o cais.
Mas quando ali chegaram o navio de Guidobaldo já tinha desaparecido.
Um velho marinheiro que ali se encontrava contou o sucedido.
- O capitão e a tua pupila chegaram aqui a meio da noite. Mandaram chamar um padre que os casou além, naquela capela. Mal terminou o casamento embarcaram e ao primeiro nascer do dia o navio levantou a âncora, içou as velas e navegou ao largo.
Jacob Orso olhou para a distância. O navio já não se avistava pois a brisa soprava da terra.
O tutor e Arrigo queixaram-se à senhoria de Veneza e ao doge. Depois mandaram quatro navios à procura dos fugitivos. Mas o mar é grande, há muitos portos, muitas baías, muitas cidades marítimas, muitas ilhas. E Vanina e Guidobaldo nunca mais foram descobertos".

Esta é a lenda de uma jovem da Lídia, cujo pai, Idmon, era tintureiro. A jovem Aracne adquirira uma grabde reputação na arte de tecer e bordar. As tapeçarias que desenhava eram tão belas que as ninfas dos campos mais próximos vinham contemplá-las. A sua habilidade granjeava-lhe a fama de ter sido aluna de Atena, a deusa das fiandeiras, mas Aracne entendia que só a si própria devia o seu talento. Desafiou a deusa, que aceitou a proposta e apareceu disfarçada de velha. Atena limitou-se a adverti-la, aconselhando-lhe mais modéstia, caso contrário deveria recear a cólera de deusa. Aracne rspondeu-lhe com insultos. A deusa então abandonou o disfarce e o concurso começou. Atena representou sobre a tapeçaria os doze deuses do Olimpo em toda a sua majestude e para aviso da sua rival acrescentou nos quatro cantos a representação dos quatro episódios mostrando a derrotados mortais que tinham ousado desafiar os deuses. Aracne desenhou sobre o seu trabalho os amores dos deuses, mas os amores que não os honravam e os tornavam adúlteros. O seu trabalho era perfeito, mas a deusa, furiosa, rasgou-o e feriu a sua rival com a naveta. Ultrajada e desesperada, Aracne enforcou-se. Atena não a deixou morrer e transformou-a em aranha, que continua a fiar e a tecer na ponta do seu fio.

Jaime era um homem exemplar. Trabalhador, amigo, sempre pronto a ajudar, simpático para toda a gente...Mas sempre triste. Há uns tempos atrás havia sido divertido. Mas algo de muito triste aconteceu. Perdera a mulher da sua vida. A morte levara-a tão rápido que nem tempo tivera de a fazer feliz. Era ainda uma jovem, plena na sua beleza e graciosidade. Recentemente formada, quebraram os obstáculos que os separavam e iniciaram uma vida conjunta. Planeava um emprego, ele pensava em filhos; tudo numa perfeição idealizado a dois...quando um acidente demove todas as ideias que haviam planeado.
Jaime nunca mais foi o mesmo. refugiava-se no trabalho, nos primeiros anos nem saía com os amigos, todas as noites sonhava com ela...Recordava o ar de menina, a beleza que ainda possuía mesmo depois de morta. Relembrava assustadoramente o cândido sorriso que lhe pairava nos lábios quando a contemplava no caixão. Como era linda, uma imagem de pura inocência...
Ao longo dos tempos Jaime foi melhorando a sua condição. Voltara a sair com os amigos, distrair-se, mas o seu sorriso já não possuía a mesma alegria jovial de antigamente. Belo e elegante, muitas mulheres o cobiçavam, mas ele mantinha-se preso à memória daquela que lhe roubara o coração para sempre.
Certa noite, algo de estranho aconteceu. Jaime dormia quando, de súbito, uma luz, branca e incandescente, surgiu no quarto. Ele abria e fechava os olhos, incomodado com a forte luz que aparecera sem saber como.
Ficou sentado na cama, sem saber que lhe fazer, quando ouviu uma voz, calma, límpida e bela dirigir-se-lhe:
- Jaime...!
Ele sentiu um misto de medo e conforto por aquela voz feminina que vinha da luz.
- Quem...quem és tu? - a voz custava a sair, o som preso à garganta...
- Não temas...- Aquela voz...Jaime conhecia aquela doce voz que vinha aos seus ouvidos e que sentia já não ouvir há muito.
- Já não falta muito, Jaime...
- Mas...quem és tu? Eu conheço-te?
- Sim, conheces. - A luz tornou-se menos viva, menos luminosa e Jaime viu uma sombra. - Tenho estado a teu lado todo este tempo, Jaime; a proteger-te, a velar por ti, mas é quase chegada a hora. - A sombra ia-se aproximando até se tornar visível. Jaime nem quis acreditar quando viu Maria.
Maria, a sua amada, a sua menina, a querida do seu coração, que a vida tragara e a morte levara para sempre.
- Maria! Mas...isto é um sonho!
- Não, Jaime, não é um sonho...
- Não, não pode ser! Eu estou a sonhar!
Fechou os olhos, abriu-os de novo, e Maria continuava lá, mais bela que nunca, vestida de branco, os olhos assustadoramente luminosos, o cabelo brilhante como oiro, o seu ar etereo envolvido pela luz branca que inicialmente vira.
- Não sou um sonho, nunca o fui, Jaime!
- Mas...tu já não estás viva!
- Estou, Jaime, o meu corpo morreu, mas a minha alma ganhou uma nova vida e aqui estou por ti, para te salvar.
- Mas porquê, meu amor? Que me vai acontecer?
Ela sorriu.
- Nada te acontecerá até chegar a tua hora. Vim para te salvar após a tua morte. Mas para isso terás uma missão. Se a cumprires correctamente terás garantida a vida eterna.
Os olhos dele brilharam.
- Irei para ao pé de ti?
Ela voltou a exibir o seu terno sorriso.
- Sim, virás ter comigo. Nada mais posso fazer por ti. Proteger-te-ei até ao fim dos teus dias, mas a salvação da tua alma só de ti dependerá.
- Que tenho eu de fazer?
- Revelar a toda a gente o que aconteceu esta noite.
- Mas como?! Ninguém vai acreditar!
- Não te preocupes. Não te esqueças, estarei sempre contigo. Amo-te.
Desapareceu. O quarto voltou à escuridão. No silêncio apenas se ouviu um murmúrio:
- Maria!...
De manhã Jaime não acordou. Não acordou porque não mais conseguira adormecer desde que Maria desaparecera do quarto.
Não conseguia abstrair-se do que tinha acontecido. Ficou quedo, olhos paralisados, deitado de braços estendidos, recordando-a, ouvindo de novo as suas palavras, a sua voz. Os olhos dela, mais belos do que já tinham sido em vida, incadeavam, hipnotizavam qualquer olhar.
As visões sucederam-se, quase todas as noites Jaime recebia a visita do seu anjo da guarda. E quando ela não aparecia ficava triste toda a noite, louco de saudade. Esperava, sempre, ansioso, pela sua amada e ficava embalado pelo seuencanto quando ela vinha, ouvindo-a, contemplando-a, como já não fazia há tanto tempo.
Quando tentou por em acção o que Maria lhe pediraninguém acreditou, toda a gente achava que estava louco.
- Jaime, acredita! Essas visões são sonhos que tu tens, imaginações causadas pelas saudades que tens da Maria.
- Não, António! Ao menos tu, que acredites em mim! Eu tenho-a visto, todas as noites!
- Jaime, esquece! A Maria morreu, compreendes?! Está morta! Desculpa falar assim, mas tens de começar a ver a realidade.
Não sabia mais que fazer, mas tinha de tentar por tudo levar aquela missão até ao fim para merecer o Céu e ficar para sempre junto da sua amada.
Jaime já dormia quando Maria apareceu naquela noite.
- Jaime! - A luz acordou-o. Uma leve brisa arrepiou-lhe o corpo. - É quase chegada a hora.
- Meu anjo!
- A tua hora está a chegar, meu amor. Em breve estaremos juntos para sempre.
- Desculpa... - Ele tinha uma expressão triste, desapontado consigo mesmo.
- Fizeste o que esperava de ti. Tentaste, esforçaste-te...mas não te preocupes! Estás protegido, tens o Céu garantido.
- Mas, Maria...
- Deus não está desiludido contigo, mas com as pessoas que não conseguem acreditar no que tu acreditas.
- Mas elas nunca viram!
- Não te preocupes. Amanhã por esta hora estaremos juntos, não aqui, mas no Paraíso.
No dia seguinte Jaime revelou ao seu amigo o que Maria previra.
- Morrerei hoje. - O outro olhou-o, abismado. - Amanhã por esta hora já aqui não estarei.
- Estás a ir longe demais com esta história.
- Gostava que acreditasses antes disso acontecer mas sei que depois disso acreditarás.
Depois do emprego Jaime seguiu com o seu carro pela estrada habitual que o levava a casa. No mesmo local onde Maria morrera foram encontrados dois carros acidentados. António foi rapidamente para o local. O carro de Jaime estava praticamente desfeito na parte frontal. O corpo estava lá, morto; a alma, essa, só Deus saberia.