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Quarta-feira, 4 de Outubro de 2006

Fílis

Ao regressar de Troia, Acamante foi surpreendido por uma tempestade que o arrastou com algumas naus para a costa da Trácia, para a embocadura do Estrímon, onde foi acolhido pelo rei Fileu. Este monarca tinha uma filha chamada Fílis, que se apaixonou pelo príncipe. O rei prometeu-lhe casamento, mas prevenira-a de que antes teria de regressar a Atenas, a fim de resolver uns assuntos urgentes, após o que voltaria para nunca mais a deixar. Fílis consentiu em tal separação mas entregou ao noivo uma caixinha, dizendo-lhe que a deveria conservar fechada e que continha os objectos sagrados do culto de Reia. Só deveria abri-la no dia em que tivesse perdido toda a esperança de a voltar a ver ou não voltar para ela. 

Chegou o dia aprazido e ele não apareceu. Nove vezes Fílis desceu da cidade até ao porto para ver se chegava o barco do seu amado, mas em vão. Em memória dos nove percursos efectuados pela jovem o local onde esperara ficou conhecido como "o sítio das nove estradas".

Quando perdeu a esperança de voltar a ver o seu amor, Fílis enforcou-se. No mesmo dia, em Creta, onde entretanto Acamante se tinha fixado, desposando outra mulher, algo de curioso aconteceu. O amante traidor abriu a caixa que a noiva lhe dera e dela saiu um espectro que assustou o seu cavalo. O animal empinou-se e o jovem caiu sobre a sua espada, morrendo instantaneamente.

Contava-se ainda que Fílis tinha sido convertida em árvore - numa amendoeira sem folhas.

O noivo voltou à Trácia, após a morte da jovem e soube da sua metamorfose. Acercou-se da amendoeira estéril e beijou-a. Logo brotaram folhas e a árvore reverdesceu. Daí advinha, segundo se dizia, o nome dado em grego às folhas, chamadas inicialmente petala e mais tarde phylla.

Segundo outra versão, teriam sido plantadas sobre o túmulo de Fílis algumas árvores que perderiam as folhas na estação em que a jovem morrera.

publicado por melinha às 16:33
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Segunda-feira, 2 de Outubro de 2006

A donzela no rochedo dos dragões

Sob as montanhas das Sete Serras ergue-se o rochedo dos dragões, com suas arrojadas ruínas, beirando o Reno.

Nos tempos remotos, assim diz a saga, aqui existia uma caverna que abrigava um dragão, a quem os habitantes

da região prestavam culto, inclusive, oferecendo-lhe em sacrifícios vítimas humanas. Habitualmente, eram

escolhidas para isso pessoas que haviam sido aprisionadas nas guerras. Entre estes, certa vez, havia uma

donzela que já havia se convertido ao cristianismo. Ela tinha uma rara beleza e dois chefes disputavam a sua

posse. Então, os mais velhos decidiram que ela seria oferecida ao dragão, a fim de que nenhuma discórdia

pairasse entre os maiorais do povo.

Vestida de branco e com uma coroa de flores na cabeça, a donzela foi conduzida pela montanha e amarrada a uma

árvore perto da caverna do rochedo, onde ficava o dragão. Muitas pessoas se aglomeraram e ficaram distantes

para observarem o espectáculo, mas foram poucos os que não lamentaram, de coração, a perda daquela pobre. A

donzela permanecia calma ali e levantava seus olhos para o céu, piedosa e resignadamente.

Ali mesmo, o Sol iluminou a montanha e lançou seus primeiros raios sobre a entrada da caverna. Logo, logo, o

monstro alado rastejou para fora e, apressado, dirigiu-se para o local onde era de costume achar sua vítima

imolada. A donzela não se apavorou. Ela conseguiu puxar uma cruz do Redentor que sempre trazia sob a roupa e

exibiu-a contra o dragão. Ele estremeceu-se todo, recuou e precipitou-se, silvando de medo, no abismo mais

próximo, de onde veio um enorme estrondo. E ninguém mais o viu.

Então, os espectadores apressaram-se, profundamente emocionados pelo milagre, em desamarrar a donzela e viram

com espanto e admiração a pequena cruz. A donzela, então, explicou-lhes o significado daquela sagrado símbolo,

e todos prostraram-se ao chão e imploraram que o Salvador voltasse e lhes enviasse um sacerdote que lhes

instruísse e pudesse baptizá-los.

Assim chegou o Cristianismo à região das Sete Serras e no lugar da caverna do dragão foi construída uma capela.

publicado por melinha às 11:31
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Lendas do Reno

O arcebispo cruel

Outra lenda muito conhecida é a que envolve a Mäuseturm ("torre dos camundongos"), uma pequena fortaleza construída dentro do rio, em frente à cidade de Bingen, pelo arcebispo Hatto, de Mainz. Ela servia como posto de recolhimento de pedágio dos navios que viajavam pelo Reno.

Hatto era conhecido por sua crueldade e por sua avareza, recolhendo impostos altíssimos dos seus súditos. Quando, certa vez, uma catástrofe natural destruiu grande parte da colheita da região, o arcebispo mandou recolher o que sobrara da produção agrícola, trancando tudo em seus silos e deixando a população à míngua.

Uma multidão de famintos dirigiu-se então ao seu palácio para implorar por um pouco de comida. O arcebispo mandou que fossem a um celeiro, onde encontrariam toda a comida que desejassem. Quando todos se entraram no celeiro, Hatto mandou que se trancasse as portas e ateasse fogo ao celeiro.

Das cinzas surgiram, porém, multidões de camundongos que perseguiram o arcebispo, invadindo seu palácio, comendo tudo o que encontravam e atacando as pessoas. Em pânico, Hatto fugiu para a Mäuseturm, onde acreditava estar a salvo, pois a fortaleza encontra-se no meio do rio. Enganou-se, porém: os camundongos o seguiram até lá e o devoraram.

publicado por melinha às 11:29
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Lendas do Reno

O penhasco da Loreley, à esquerda em segundo planoCada ruína, cada castelo e até mesmo alguns acidentes geográficos em torno do Reno são motivo de lendas, que inspiraram os poetas alemães desde tempos remotos. A mais conhecida de todas as lendas do Reno é a da Loreley.

Num penhasco à margem direita do rio, situado entre as cidades de Sankt Goarshausen e Kaub, morava Loreley, uma sereia de beleza incomparável e longos cabelos dourados. Nas noites de lua cheia, a Loreley entoava um irresistível canto que fazia os navegantes esquecerem o leme, num enlevo fatal, que conduzia seus barcos invariavelmente contra as rochas existentes naquele perigoso trecho do rio.

Assim sucedeu também com o filho do conde do Palatinado, Ronald, que apaixonado pelo canto da sereia teve o mesmo fim de outros navegantes. Irado pela morte do filho, o conde enviou tropas ao penhasco, com ordens de aprisionar a sereia e lançá-la do alto do rochedo ao rio, uma queda à qual seria impossível sobreviver.

Com grande esforço, os soldados do conde escalaram o penhasco, encontrando a sereia calmamente sentada, penteando os cabelos com um pente dourado. Ao saber das intenções dos soldados, a Loreley tomou seu colar de pérolas, lançando-o ao rio. Imediatamente levantou-se de lá uma enorme onda, sobre a qual a sereia baixou lentamente ao leito do Reno. Loreley nunca mais foi vista, mas seu canto continuou a ser ouvido durante muito tempo, nas noites claras de lua cheia.

publicado por melinha às 11:17
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O rapto de Perséfone

Perséfone é filha de Zeus e Deméter. Crescia feliz entre as ninfas e pouco se preocupava com o casamento quando o seu tio Hades se apaixonou por ela e, com a ajuda de Zeus, a raptou. Perséfone colhia flores, em companhia das suas ninfas quando a terra se abriu, Hades apareceu e levou a noiva para o mundo dos infernos.

Para Deméter começou de imediato a busca da sua filha, que a fez percorrer todo o mundo conhecido. No momento de desaparecer no abismo Perséfone soltou um grito. Deméter ouviu-a e a angústia apertou-lhe o coração. A deusa acorreu, mas não conseguiu encontrar a filha. Durante nove dias e nove noites, sem comer nem beber, a deusa vagueou pelo mundo com um archote aceso em cada mão. No primeiro dia encontrou Hécate, que também ouvira o grito mas não reconhecera o raptor, cuja cabeça estava envolta pelas sombras da Noite. Apenas o sol, que tudo vê, lhe pôde dizer o que se passara.

Enfurecida, a deusa decidiu não mais voltar ao Céu e ficar na terra, abdicando da sua função divina até que lhe devolvessem a filha. O exílio voluntário da deusa tornava a terra estéril e a ordem do mundo encontrava-se perturbada. Assim, Zeus ordenou a Hades que devolvesse Perséfone, mas tal já não era possível, em virtude de a jovem ter quebrado o jejum enquanto se encontrava nos Infernos. Por inadvertência (ou tentada por Hades) ela tinha ingerido uma baga de romã, o suficiente para ficar indissociavelmente ligada aos infernos para sempre. Para amenizar o seu sofrimento Zeus decidiu que Perséfone repartiria o seu tempo entre o mundo subterrâneo e o mundo dos vivos.

 

sinto-me:
livro: Dicionário da mitologia grega e romana - Pierre Grimal
publicado por melinha às 10:06
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Sexta-feira, 29 de Setembro de 2006

Piramo e Tisbe

Há muito, muito tempo atrás, as bagas profundamente vermelhas da amoreira eram brancas como a neve. A mudança de cor que se operou foi provocada por algo de bastante estranho e triste - a morte de dois jovens apaixonados.

Piramo e Tisbe viviam na Babilónia, a cidade da rainha Semíramis em casas tão juntas que uma das paredes era comum a ambas.

Cresceram assim, lado a lado e aprenderam a amar-se mutuamente. Queriam casar mas os pais não permitiam. O amor, porém, não pode ser proibído. Era impossível continuar a manter separados aqueles dois seres profundamente apaixonados.

Na tal parede que ambas as casas partilhavam havia uma fenda de que nunca ninguém se

apercebera. Os dois jovens descobriram-na e, através dela, susurravam doces palavras de amor.  A odiosa barreira que os separava transformara-se no meio de comunicarem um com o outro.

Todas as manhãs, à hora em que o alvorecer apagava o brilho das estrelas e os raios do sol já tinham absorvido a geada dos campos, dirigiam-se a passo furtivo até junto da fenda e aí ficavam em doces murmúrios, umas vezes trocando palavras de amor ardente, outras lamentando a sua triste sorte.

Porém, chegou o dia em que não podiam resistir por mais tempo. Resolveram, pois, tentar esquivar-se nessa noite e atravessar a cidade às escondidas até ao campo em que finalmente podiam estar juntos sem nenhum embargo. Combinaram encontrar-se num local onde havia uma enorme amoreira, carregada de bagas brancas e perto da qual gorgolejava a fonte. O plano agradou-lhes em absoluto e esperaram até ao anoitecer.

O sol mergulhou no Oceano e as trevas envolveram a Terra. Na escuridão, Tisbe escapuliu-se de casa e no maior silêncio dirigiu-se para o local combinado. Príamo ainda não tinha chegado, não obstante Tisbe ficou à espera dele, pois o amor tornava-a audaciosa. De repente distinguiu à luz do luar uma leoa. O animal tinha morto alguém, pois trazia as patas ensanguentadas...vinda de saciar a sua sede na fonte. A jovem conseguiu por-se a salvo porque a fera se encontrava ainda a uma distância considerável. Mas ao fugir, apanhada de surpresa, deixou cair a capa. Quando a leoa regressou ao covil abocou-a e fê-la em pedaços antes de desaparecer no interior do bosque.

Quando Piramo apareceu alguns minutos depois, diante dele, na obscuridade, os farrapos ensanguentados da capa e as pegadas nítidas da leoa só podiam levar a uma conclusão. Tisbe tinha sido morta. E ele deixara o seu amor, aquela terna donzela vir sozinha para um lugar tão perigoso como aquele!...Como não tinha sido o primeiro a protegê-la?

"Fui eu que a matei!"

Levantou do pó espezinhado o que restava da capa e beijando-a mais uma vez levou-a para junto da amoreira.

"Agora vais beber do meu sangue!"

Arrancou a espada e enterrou-a no coração.O sangue em borbotões esparrinhou as bagas, que se tingiram de vermelho-escuro. Entretanto, Tisbe, ainda que aterrorizada pela leoa, receava antes de tudo o mais não conseguir encontrar-se de novo com o seu amado. Resolveu aventurar-se a regressar para junto da árvore.

Viu uma árvore, mas nem uma centelha de brilho branco se divisava nos ramos. Enquanto, perplexa, fitava a planta, notou, estarrecida que alguma coisa se mexia no chão. Começou a recuar, horrorizada. Mas, de repente, espreitando por entre as sombras, teve a certeza de que havia lá uma coisa. Era Piramo, banhado em sangue, prestes a expirar. Voou para ele e enlaçou-o. Beijou-lhe os lábios frios, implorando-lhe que a olhasse, que lhe falasse.

- Sou eu, Tisbe, a tua amada! - exclamava a chorar. Ao ouvir pronunciar o nome dela Piramo entreabiu os olhos para a contemplar pela derradeira vez. Depois a morte fechou-lhe os olhos para sempre.

Tisbe viu a espada que caira da mão dele e ao lado a sua capa manchada e esfarrapada. Foi então que compreendeu o que acontecera.

- A tua mão te matou e o teu amor por mim. Eu também sei ter coragem. Também eu sei amar. Só a morte seria capaz de nos separar e contudo agora deixará de ter esse poder. - Mergulhou no coração a espada ainda húmida do sangue da sua vida.

Os deuses, porém, apiedaram-se dos dois, assim como os pais de ambos. O fruto vermelho-escuro da amoreira é o único testemunho perpétuo desses verdadeiros apaixonados cujas cinzas se encontraram reunidas numa única urna, pois nem a morte conseguiu separá-los.

sinto-me: apaixonada pela historia
livro: Dicionário da mitologia grega e romana - Pierre Grimal
publicado por melinha às 17:21
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A lenda de Isis e Osíris

Conta a lenda que Seth com inveja de Osiris, por este ter herdado o reino do pai na terra, engendrou um plano para matá-lo e assim usurpar o poder. Quando Osiris dormia, Seth tirou suas medidas e ajudado por 72 conspiradores, mandou construir um esquife com as medidas exatas de Osiris.
Organizou um banquete e lançou um desafio, aquele que coubesse no esquife o ganharia de presente. Todos os deuses entraram e não se ajustaram.
Assim que Osiris entrou no esquife, Seth o trancou e mandou jogá-lo no rio, a correnteza o levou até a Fenícia. Ali ficou preso em uma planta até fazer parte do caule, que foi usado para construir uma coluna o "Djed".
Isis partiu em busca do esposo, e após muitas aventuras, conseguiu regressar ao Egito com a caixa, que escondeu em uma plantação de papiro. Seth a descobriu e cortou o corpo de Osiris em quatorze pedaços, que espalhou pelo Egito.
Novamente Isis parte em busca dos despojos do esposo e dessa vez ajudada pela irmã Néftis, transformadas em milhafres (espécie de ave de rapina, semelhante ao abutre), encontram todas as partes de Osiris, exceto o órgão genital, que havia sido devorada por um peixe o Oxirincos.
Isis foi ajudada por Anubis que embalsamou Osiris, e este tornou-se a primeira múmia do Egito. Utilizando seus poderes mágicos, Isis, conseguiu que Osiris a fecundasse e dessa união nasceu Horus.
Seth iniciou uma luta pelo poder que envolveu todos os deuses. Por fim o próprio Osiris a partir do outro mundo, ameaçou mandar levantar todos os mortos se não fosse feita a justiça.
Rá e um tribunal de deuses estabeleceram que a sucessão fosse hereditária, e assim, Hórus pôde reinar.
Dessa maneira o Faraó em vida convertia-se em Hórus e ao morrer identificava-se com Osiris, o soberano do Além, considerando-se igual ao deus.

publicado por melinha às 10:28
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Quinta-feira, 28 de Setembro de 2006

...

"(...) Certa noite, terminada a ceia, o veneziano e o dinamarquês ficaram a conversarna varanda. Do outro lado do canal via-se um belo paláciocom finas colunas esculpidas.

- Quem mora ali? - perguntou o cavaleiro.

- Agora ali só mora Jacob Orso com os seus criados, mas antes também ali morou Vanina, a rapariga mais bela de Veneza. Era orfã e Orso era o seu tutor. Quando era criança o tutor promteu-a em casamento a um seu parente, de seu nome Arrigo. Mas quando Vanina chegou aos 18 anos não quis casar com ele porque o achava velho, feio e maçador.Então Orso fechou-a em casa e nunca mais a deixou sair senão em sua companhia, ao Domingo, para ir à missa.  Durante a semana Vanina prisioneira suspirava e bordava no interior do palácio, sempre rodeada e espiada pelas suas aias. Mas à noite Orso e as criadas adormeciam. Então Vanina abria a janela do seu quarto, debruçava-se sobre a varanda e penteava os seus cabelos, que eram loiros e tão compridos que passavam além da balaustrada e flutuavam, leves e brilhantes, enquanto as águas os reflectiam. E eram tão perfumados que de longe se sentia na brisa o seu aroma. E os rapazes de Veneza vinham de noite ver Vanina pentear seus cabelos. Mas nenhum ousava aproximar-se dela, pois o tutor fizera correr por toda a cidade que mandaria apunhalar quem ousasse namorá-la.

E Vanina, jovem e bela e sem amor, suspirava naquele palácio.

Mas um dia chegou a Veneza um homem que não temia Jacob Orso.Chamava-se Guidobaldo e era capitão de um navio. O seu cabelo preto era azulado como a asa de um corvo e a sua pele queimada pelo sol e pelo sal. Nunca no Rialto passeara tão belo navegador.

Ora certa noite, Guidobaldo Passou de Gôndola pelo canal. Sentiu no ar um maravilhoso perfume, levantou a cabeça e viu Vanina pentear os cabelos. Aproximou o seu barco da varanda e disse:

- Para cabelos tão belos e perfumados seria preciso um pente de oiro.

Vanina sorriu e atirou-lhe o seu pente de marfim.

Na noite seguinte à mesma hora o jovem capitão voltou a deslizar de gôndola ao longo do canal.

Vanina sacudiu os cabelos e disse-lhe:

- Hoje não me posso pentear pois não tenho pente.

- Tens este que eu te trago e que mesmo sendo de oiro brilha menos que o teu cabelo.

Então Vanina atirou-lhe um cesto atado por uma fita onde Guidobaldo depôs a sua oferta. 

E dai em diante a rapariga mais bela de Veneza passou a ter um namorado.

Quando esta notícia se espalhou ela cidade os amigos do capitão preveniram-no de que estava a arriscar a sua vida, pois Orso não lhe perdoaria. Mas ele era forte e destemido, sacudiu os ombros e riu.

Ao fim do mês foi bater à porta do tutor.

- Que queres tu? - perguntou o velho.

- Quero a mão de Vanina.

- Vanina está noiva de Arrigo e não há-de casar com mais ninguém. Sai depressa de Veneza. Tens um dia para saires da cidade. Se amanhã ao pôr-do-sol ainda não tiveres partido mandarei sete homens com sete punhais para te matar.

Guidobaldo ouviu, sorriu, fez uma reverência e saiu.

Mas nessa noite a sua gôndola parou junto da varanda da casa de Orso. De cima atiraram um cesto preso por uma fita e dentro dele o jovem capitão depôs uma escada de seda. O cesto foi puxado para a varanda e a escada, depois de desenrolada, foi atada à balaustrada de mármore cor-de-rosa. Então, ágil e leve, Vanina desceu com os cabelos soltos flutuando na brisa. Guidobaldo cobriu-a com a sua capa escura e a gôndola afastou-se e desapareceu no nevoeiro de Outubro.

Na manhã seguinte as aias descobriram a ausência de Vanina e correram a prevenir o tutor. Jacob Orso chamou Arrigo e com ele e os seus esbirros dirigiram-se para o cais.

Mas quando ali chegaram o navio de Guidobaldo já tinha desaparecido.

Um velho marinheiro que ali se encontrava contou o sucedido.

- O capitão e a tua pupila chegaram aqui a meio da noite. Mandaram chamar um padre que os casou além, naquela capela. Mal terminou o casamento embarcaram e ao primeiro nascer do dia o navio levantou a âncora, içou as velas e navegou ao largo.

Jacob Orso olhou para a distância. O navio já não se avistava pois a brisa soprava da terra.

O tutor e Arrigo queixaram-se à senhoria de Veneza e ao doge. Depois mandaram quatro navios à procura dos fugitivos. Mas o mar é grande, há muitos portos, muitas baías, muitas cidades marítimas, muitas ilhas. E Vanina e Guidobaldo nunca mais foram descobertos".

sinto-me:
livro: O Cavaleiro da Dinamarca - Sophia de Mello Breyner Andresen
publicado por melinha às 15:12
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Aracne

Esta é a lenda de uma jovem da Lídia, cujo pai, Idmon, era tintureiro. A jovem Aracne adquirira uma grabde reputação na arte de tecer e bordar. As tapeçarias que desenhava eram tão belas que as ninfas dos campos mais próximos vinham contemplá-las. A sua habilidade granjeava-lhe a fama de ter sido aluna de Atena, a deusa das fiandeiras, mas Aracne entendia que só a si própria devia o seu talento. Desafiou a deusa, que aceitou a proposta e apareceu disfarçada de velha. Atena limitou-se a adverti-la, aconselhando-lhe mais modéstia, caso contrário deveria recear a cólera de deusa. Aracne rspondeu-lhe com insultos. A deusa então abandonou  o disfarce e o concurso começou. Atena representou sobre a tapeçaria os doze deuses do Olimpo em toda a sua majestude e para aviso da sua rival acrescentou nos quatro cantos a representação dos quatro episódios mostrando a derrotados mortais que tinham ousado desafiar os deuses. Aracne desenhou sobre o seu trabalho os amores dos deuses, mas os amores que não os honravam e os tornavam adúlteros. O seu trabalho era perfeito, mas a deusa, furiosa, rasgou-o e feriu a sua rival com a naveta. Ultrajada e desesperada, Aracne enforcou-se. Atena não a deixou morrer e transformou-a em aranha, que continua a fiar e a tecer na ponta do seu fio.

livro: Dicionário da mitologia grega e romana - Pierre Grimal
publicado por melinha às 11:00
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O Anjo

 

Jaime era um homem exemplar. Trabalhador, amigo, sempre pronto a ajudar, simpático para toda a gente...Mas sempre triste. Há uns tempos atrás havia sido divertido. Mas algo de muito triste aconteceu. Perdera a mulher da sua vida. A morte levara-a tão rápido que nem tempo tivera de a fazer feliz. Era ainda uma jovem, plena na sua beleza e graciosidade. Recentemente formada, quebraram os obstáculos que os separavam e iniciaram uma vida conjunta. Planeava um emprego, ele pensava em filhos; tudo numa perfeição idealizado a dois...quando um acidente demove todas as ideias que haviam planeado.

Jaime nunca mais foi o mesmo. refugiava-se no trabalho, nos primeiros anos nem saía com os amigos, todas as noites sonhava com ela...Recordava o ar de menina, a beleza que ainda possuía mesmo depois de morta. Relembrava assustadoramente o cândido sorriso que lhe pairava nos lábios quando a contemplava no caixão. Como era linda, uma imagem de pura inocência...

Ao longo dos tempos Jaime foi melhorando a sua condição. Voltara a sair com os amigos, distrair-se, mas o seu sorriso já não possuía a mesma alegria jovial de antigamente. Belo e elegante, muitas mulheres o cobiçavam, mas ele mantinha-se preso à memória daquela que lhe roubara o coração para sempre.

Certa noite, algo de estranho aconteceu. Jaime dormia quando, de súbito, uma luz, branca e incandescente, surgiu no quarto. Ele abria e fechava os olhos, incomodado com a forte luz que aparecera sem saber como.

Ficou sentado na cama, sem saber que lhe fazer, quando ouviu uma voz, calma, límpida e bela dirigir-se-lhe:

- Jaime...!

Ele sentiu um misto de medo e conforto por aquela voz feminina que vinha da luz.

- Quem...quem és tu? - a voz custava a sair, o som preso à garganta...

- Não temas...-  Aquela voz...Jaime conhecia aquela doce voz que vinha aos seus ouvidos e que sentia já não ouvir há muito.

- Já não falta muito, Jaime...

- Mas...quem és tu? Eu conheço-te?

- Sim, conheces. - A luz tornou-se menos viva, menos luminosa e Jaime viu uma sombra. - Tenho estado a teu lado todo este tempo, Jaime; a proteger-te, a velar por ti, mas é quase chegada a hora. - A sombra ia-se aproximando até se tornar visível. Jaime nem quis acreditar quando viu Maria.

Maria, a sua amada, a sua menina, a querida do seu coração, que a vida tragara e a morte levara para sempre.

- Maria! Mas...isto é um sonho!

- Não, Jaime, não é um sonho...

- Não, não pode ser! Eu estou a sonhar!

Fechou os olhos, abriu-os de novo, e Maria continuava lá, mais bela que nunca, vestida de branco, os olhos assustadoramente luminosos, o cabelo brilhante como oiro, o seu ar etereo envolvido pela luz branca que inicialmente vira. 

- Não sou um sonho, nunca o fui, Jaime!

- Mas...tu já não estás viva!

- Estou, Jaime, o meu corpo morreu, mas a minha alma ganhou uma nova vida e aqui estou por ti, para te salvar.

- Mas porquê, meu amor? Que me vai acontecer?

Ela sorriu.

- Nada te acontecerá até chegar a tua hora. Vim para te salvar após a tua morte. Mas para isso terás uma missão. Se a cumprires correctamente terás garantida a vida eterna.

Os olhos dele brilharam.

- Irei para ao pé de ti?

Ela voltou a exibir o seu terno sorriso.

- Sim, virás ter comigo. Nada mais posso fazer por ti. Proteger-te-ei até ao fim dos teus dias, mas a salvação da tua alma só de ti dependerá.

- Que tenho eu de fazer?

- Revelar a toda a gente o que aconteceu esta noite.

- Mas como?! Ninguém vai acreditar!

- Não te preocupes. Não te esqueças, estarei sempre contigo. Amo-te.

Desapareceu. O quarto voltou à escuridão. No silêncio apenas se ouviu um murmúrio:

- Maria!...

De manhã Jaime não acordou. Não acordou porque não mais conseguira adormecer desde que Maria desaparecera do quarto.

Não conseguia abstrair-se do que tinha acontecido. Ficou quedo, olhos paralisados, deitado de braços estendidos, recordando-a, ouvindo de novo as suas palavras, a sua voz. Os olhos dela, mais belos do que já tinham sido em vida, incadeavam, hipnotizavam qualquer olhar.

 

As visões sucederam-se, quase todas as noites Jaime recebia a visita do seu anjo da guarda. E quando ela não aparecia ficava triste toda a noite, louco de saudade. Esperava, sempre, ansioso, pela sua amada e ficava embalado pelo seuencanto quando ela vinha, ouvindo-a, contemplando-a, como já não fazia há tanto tempo.

Quando tentou por em acção o que Maria lhe pediraninguém acreditou, toda a gente achava que estava louco.

- Jaime, acredita! Essas visões são sonhos que tu tens, imaginações causadas pelas saudades que tens da Maria.

- Não, António! Ao menos tu, que acredites em mim! Eu tenho-a visto, todas as noites!

- Jaime, esquece! A Maria morreu, compreendes?! Está morta! Desculpa falar assim, mas tens de começar a ver a realidade.

Não sabia mais que fazer, mas tinha de tentar por tudo levar aquela missão até ao fim para merecer o Céu e ficar para sempre junto da sua amada.

 

Jaime já dormia quando Maria apareceu naquela noite.

- Jaime! - A luz acordou-o. Uma leve brisa arrepiou-lhe o corpo. - É quase chegada a hora.

- Meu anjo!

- A tua hora está a chegar, meu amor. Em breve estaremos juntos para sempre.

- Desculpa... - Ele tinha uma expressão triste, desapontado consigo mesmo.

- Fizeste o que esperava de ti. Tentaste, esforçaste-te...mas não te preocupes! Estás protegido, tens o Céu garantido.

- Mas, Maria...

- Deus não está desiludido contigo, mas com as pessoas que não conseguem acreditar no que tu acreditas.

- Mas elas nunca viram!

- Não te preocupes. Amanhã por esta hora estaremos juntos, não aqui, mas no Paraíso.

No dia seguinte Jaime revelou ao seu amigo o que Maria previra.

- Morrerei hoje. - O outro olhou-o, abismado. - Amanhã por esta hora já aqui não estarei.

- Estás a ir longe demais com esta história.

- Gostava que acreditasses antes disso acontecer mas sei que depois disso acreditarás.

Depois do emprego Jaime seguiu com o seu carro pela estrada habitual que o levava a casa. No mesmo local onde Maria morrera foram encontrados dois carros acidentados. António foi rapidamente para o local. O carro de Jaime estava praticamente desfeito na parte frontal. O corpo estava lá, morto; a alma, essa, só Deus saberia.

sinto-me:
livro: (autoria propria)
publicado por melinha às 09:30
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